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Mais inquietação, menos aceitação


Você já ouviu falar do “complexo de vira-lata”? A expressão foi criada pelo saudoso dramaturgo Nelson Rodrigues e se referia a inferioridade que o brasileiro se coloca, voluntariamente, frente ao resto do mundo.

Sou fã de Nelson Rodrigues. Já devorei obras e mais obras e hoje me sinto ansioso por não poder lê-lo tanto quanto fazia quando eu era mais jovem. Mas pergunto: até quando o pensamento de Nelson Rodrigues será usado como grito ufanista para esconder de nós próprios os defeitos que temos?

Sim, porque virou chavão falar que aqueles que criticam o Brasil têm complexo de vira-latas. Você falou que o Brasil é violento já vem um e fala: “é complexo de vira-lata! ”.

Que país é esse que apresenta os piores índices do mundo em educação, segurança, corrupção, produtividade, saúde, saneamento, transporte público, inovação e tantos mais, e não se pode admitir os números – cruéis, é verdade -- porque já se é taxado como portador do complexo Rodrigueano?

Que lugar é esse onde vale a lei do mais esperto para tudo – da vaga na igreja à fila do supermercado --, onde a corrupção é endêmica e entranhada em todos os cantos – da mais alta corte ao menor orfanato –, onde se mata mais que zonas de guerra e não se tem o direito de apontar: Olha ali, precisamos melhorar! Que lugar é esse?

Meu saudoso avô, sábio homem, desde cedo me falava: filho, se você quiser corrigir um defeito; se você quiser melhorar, você precisa primeiro aceitar os defeitos que tem.

O primeiro passo para sairmos do nosso grande atoleiro é: reconhecer aquilo em que somos miseráveis. Reconhecer aquilo que nos envergonha. Aceitar o atraso e a vala moral que nos encontramos em tantos aspectos. É reconhecendo e aceitando nossas limitações, que poderemos juntos -- como povo, como nação -- consertá-los!

A mudança que precisamos é uma mudança cultural; de valores. Precisamos curar nossas chagas centenárias, nossas manias mais venenosas, nossos hábitos mais selvagens e a partir daí reconstruirmos um lugar o qual possamos nos orgulhar.

“Mas e o que temos de bom? ”, perguntarão alguns. Que reconheçamos também. Mas que isso não nos tire a lucidez de entender aquilo que precisamos corrigir.

Eu conclamo a todos os brasileiros do bem, que parem de depositar seu futuro nas mãos dos políticos, do vizinho, do chefe, do síndico, do pai, da mulher. Vamos assumir desde hoje nossa responsabilidade individual e coletiva, reconhecer a longa estrada que temos pela frente e deixar, assim, para os que chegarem, um país melhor do que aquele que encontramos.

Gabriel Cardoso

Charge de Izânio.

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