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Aqui tem um problema. E ele é nosso.


“Brasil, ame-o ou deixei-o” era o lema do governo de 1964 que refletia a demasiada intolerância às críticas sobre fragilidades, equívocos e problemas do país naquela época. Não só cientistas, artistas e acadêmicos, mas qualquer cidadão da sociedade brasileira não podia expressar descontentamento quanto a questões nacionais; amar o país acima de qualquer coisa era o imperativo.

Por vezes vejo a mesma reação de alguns brasileiros que, em pleno século XXI, fecham a cara e fazem bico ao ouvir críticas a nossos problemas. Ora, como corrigir um problema quando esse não é identificado? Você conseguirá corrigir uma fragilidade pessoal se não a identifica como tal? Como legitimar um problema no bairro, cidade ou país que não foi identificado?

O empreendedorismo social e as políticas públicas, apesar de liderados por atores distintos – sociedade civil e Estado, respectivamente –, possuem a mesma lógica (aqui simplificada) para resolver problemas na sociedade, onde (I) identifica-se o problema social (que também pode ser cultural, econômico, ambiental e político) para, em seguida, (II) agir e criar meios para sua solução.

Problema social é uma condição que não condiz com os valores de uma sociedade. É, dessa maneira, algo desagradável. Valores são acordos sociais sobre o que é bom ou mau; certo ou errado. A violência e a fome, por exemplo, contradizem o valor do bem-estar humano, logo são problemas sociais. Pode-se concluir então que problema social é uma a condição que deve ser alterada para que não passe a afetar os demais membros de uma sociedade.

Assim, a gênese do empreendedorismo social são os problemas sociais. Sem a consciência de problemas, não haverá esforço para resolvê-los e não surgirão propostas de solução. O empreendedor social deve estimular profunda reflexão a respeito dos problemas que afligem sua comunidade, cidade, seu bairro ou seu país. Deve ser tocado pelo problema (muitas vezes até afetado por ele) e imergir no dia a dia daqueles que são afetados. Compreender a raiz do problema, seu caráter objetivo, que é mais óbvio, e, principalmente, o caráter subjetivo do grupo de pessoas que mais sofre com o problema, é necessário para que possa vir à tona propostas de solução.

Já falamos sobre o mesmo tema aqui, aqui e aqui, mas cabe dar nova roupagem e ventilar problemas sociais comuns em nosso país, tais como: Criminalidade, corrupção e violência; Pobreza, fome e miséria; Problemas de saúde física e mental; Álcool, drogas legais e ilegais; Problemas familiares, tais como violência, abuso precarização das relações; Acesso, financiamento e qualidade da educação; Moradia, saneamento básico e salubridade; Acessibilidade atitudinal, arquitetônica, comunicacional, tecnológica e instrumental; Envelhecimento populacional, dentre outros, e outros, e outros.

Apontar problemas é ter complexo de vira-latas? Não. Apontar problemas é o primeiro passo para solucioná-los.

Dado o primeiro passo, é hora de propor uma solução (ou apoiar os que estão a propor). E aqui trago a segunda parte deste texto.

Qual seria o motivo da inação de muitos brasileiros para propor soluções aos nossos problemas sociais? Em minha opinião, são vários os motivos. Principalmente de fundo cultural. Também já falamos sobre isso aqui, aqui e aqui. Mas quero tocar hoje num outro ponto específico: a questão do público e do privado.

Público é tudo aquilo que não pertence a um indivíduo em específico, e sim a coletividade. Já privado é aquilo que pertence de modo exclusivo a um indivíduo ou grupo. Todo brasileiro sabe o que é seu. Aquilo que é privado.

Será mesmo?

Há uma falha no raciocínio em muitos de nós, brasileiros, quanto aos problemas da comunidade, da cidade e do país: são problemas públicos. Se são públicos, pertencem a todos. E se pertencem a todos, (atenção à falha) pertencem a ninguém (ou, na melhor das hipóteses, pertencem ao governo).

Falta a nós o senso de pertencimento à coletividade, ao público. Falta a nós a noção de propriedade daquilo que é de todos. Nós, brasileiros, vemos o público como algo sem dono ou como propriedade (e responsabilidade) de “instâncias elevadas”: seja o presidente, governador, prefeito ou síndico.

Nos falta a noção de coletividade, muito relacionado à unidade, presente em países que já passaram por privações de guerra e catástrofes naturais.

Se na primeira parte do texto, humildemente fiz um convite à busca de problemas, na segunda sugiro que também nos apropriemos dos problemas que nos cercam. Se for difícil “se apropriar” de um problema como, sei lá, a corrupção nacional; comece com a apropriação dela em seu dia a dia: fiscalize-a em sua comunidade, em seu ambiente de trabalho e nos locais que frequenta.

Se problemas ambientais nacionais parecem distantes a você; comece pela reciclagem, reuso, reutilização ou economia de água nos locais em que está presente. Nos apropriando dos problemas próximos, estamos, aos poucos, nos apropriando dos problemas públicos maiores que também nos pertencem.

Esta é a proposta de um exercício que vai dos níveis mais elementares, como a prevenção e solução de problemas individuais, podendo chegar aos níveis mais elevados, como a solução de grandes problemas sociais por meio de empreendimentos, participações em audiências públicas ou mobilização de movimentos do terceiro setor.

Nós, brasileiros, precisamos identificar nossos problemas e nos apropriamos deles. Aqui têm muitos problemas. E eles são nossos!

“A menos que alguém como você se importe de verdade, nada vai melhorar. Não vai. ”

Dr. Seuss, O Lorax

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