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Graduação sem provas, sem notas e sem aulas existe... Na Finlândia.


Conheça como funciona a formação de empreendedores e líderes de times em uma das principais universidades da Finlândia.

EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA NA FINLÂNDIA

Compreender como o empreendedorismo é estimulado no ensino superior Finlandês foi uma das minhas prioridades nos quase 30 dias que passei em Tampere, na Finlândia, no mês de junho.

Essa viagem teve o objetivo de iniciar uma formação pessoal que culminará em um projeto acadêmico inovador para execução em nosso Centro Universitário, o UDF. Estivemos em um grupo de professores do Brasil, de diversas instituições vinculadas ao consórcio STHEM, na Universidade de Tampere de Ciências Aplicadas (TAMK).

Entre as iniciativas, ações e os cursos vinculados à educação e a formação empreendedora na TAMK, a mais famosa é o Proakatemia: um programa de graduação independente em Empreendedorismo e Liderança de Times (além de um mestrado, que explicarei em outra postagem).

A história começa assim, semestralmente: cerca de 600 estudantes de todos os cursos da TAMK participam de um processo seletivo que consiste, basicamente, em análise de currículo, vídeo gravado pelo candidato, entrevista em grupo e tarefas escritas. Dos candidatos, apenas 40 são selecionados para o programa. Após um semestre de ambientação e nivelamento nas atividades tradicionais da universidade, eles iniciam sua jornada de 3 anos no Proakatemia: sem aulas, sem provas e sem notas – e sim desenvolvendo tarefas reais por meio de times e com total protagonismo sobre sua formação. Nesse período, passam a ser chamados de empreendedores, e não mais estudantes.

Parece estranho não só àqueles que tenham sido formados no modelo tradicional de educação, como eu, mas até para alguns jovens finlandeses já acostumados com o modelo educacional do país, onde o estudante é de fato o centro do processo de aprendizagem. Para diminuir ruídos quanto a isso durante a graduação, o slogan repetido exaustivamente no Proakatemia é “trust the process”, este, aliás, o mote da educação finlandesa: confie no processo.

Cabe aqui uma observação: a confiança é a base da sociedade finlandesa. Na Finlândia a palavra vale, sem ressalvas: na sala de aula, no comércio ou onde quer que você esteja. Na perspectiva dos finlandeses, se você afirma algo para alguém é porque você não teria razão para mentir.

Além da confiança, há outros quatro valores que imperam no Proakatemia e funcionam como uma espécie de espiral evolutivo: se há (1) CONFIANÇA no processo, nos estudantes e nos envolvidos, há (2) CORAGEM: o aluno sente-se seguro e com coragem para criar e, daí, (3) AGIR. A ação é o terceiro valor. A partir da ação e da reflexão de seus resultados, surge a (4) APRENDIZAGEM. Aprendendo e evoluindo continuamente, o estudante alcançará o (5) SUCESSO, o quinto e último valor do programa.

Mergulhados nesses cinco valores, os 40 estudantes (ops, quer dizer, empreendedores) formam seus times. Esses times, com cerca de 15 a 20 empreendedores, estarão juntos até o final da formação e serão responsáveis por sua aprendizagem, sua autogestão e seus resultados; juntos, se apoiando por meio de uma rede de confiança. E assim se evidencia como método principal de aprendizagem o team based learning (TBL ou aprendizagem baseada em times).

Logo no primeiro semestre, o time precisa abrir uma empresa real com seu próprio dinheiro e de acordo com as regras do país. Não há suporte financeiro e nem legal: nem os familiares e nem universidade interferem na decisão dos estudantes-empreendedores. Lidar com ambiguidade, risco e incerteza -- competência essencial no século XXI e para qualquer empreendedor – é condição necessária e estimulada no decorrer de todo o processo.

Após (I) abrir a empresa, os empreendedores devem percorrer durante os 6 semestres aquilo que o Proakatemia chama de caminho de aprendizagem do empreendedor, onde precisam também (II) construir uma rede de clientes; (III) aumentar a estrutura de operações do negócio; (IV) desenvolver a lucratividade do negócio; (V) realizar um projeto de conclusão de curso sobre a experiência empresarial.

Tive a oportunidade de conhecer (e ouvir falar) sobre algumas das empresas criadas durante as semanas em que estivemos em Tampere, na Finlândia: desde cafeterias, passando por agências de marketing, até empresas de tecnologia. Conheci também empreendedores em curso e empreendedores já graduados: conversas e experiências inspiradoras para um entusiasta de empreendedorismo e educação como eu!

O CURRÍCULO

Como protagonistas, os empreendedores são responsáveis por guiar sua aprendizagem e por isso devem elaborar o seu plano de formação, de acordo com o seguinte direcionamento curricular: durante os 6 semestres precisam completar 1100 horas de atividades, distribuídas percentualmente nos seguintes grupos:

  • (a) trabalhando em time na empresa própria, desenvolvendo projetos para os clientes, contratando fornecedores, estabelecendo marcas etc. (35% do tempo total);

  • (b) frequentando seminários e workshops escolhidos e definidos pelos próprios estudantes, de acordo com suas necessidades específicas de formação ou de sua empresa (15% do tempo);

  • (c) estudando a literatura específica, bem como desenvolvendo ensaios teóricos e/ou que versem sobre a experiência prática no decorrer do programa (24% do tempo);

  • (d) sessões de treinamentos com coachs e pares em que o diálogo é a principal ferramenta (17%);

  • (e) gerando inovações para o time, a empresa ou para o processo de aprendizagem (4%);

  • (f) apoiando e contribuindo para o desenvolvimento e manutenção do programa Proakatemia (1%);

  • (g) participando de atividades diversas de formação (4%).

Cabe apontar que o controle, bem como relatório de horas, é feito pelo próprio empreendedor durante o semestre. Ao final dos períodos, as horas cumpridas são comparadas com os resultados da empresa para fins de validação ou feedback.

Os coachs dos times e dos empreendedores, importante destacar, possuem um papel de destaque na metodologia e na dinâmica do Proakatemia. A atividade de coach requer dele uma mudança de foco, se comparada ao modelo de ensino tradicional: o coach foca nos resultados do processo de aprendizagem em vez de acompanhar e se preocupar com todo o processo de aprendizagem. Ele também não dá respostas: seu papel é elaborar boas perguntas.

Diferentemente do que ocorre no Brasil, os coachs na Finlândia necessitam de cerca de um ano e meio de formação acadêmica para se intitular dessa forma. No caso específico do Proakatemia, os coachs são empreendedores e/ou ex-alunos bem-sucedidos, com sólida formação pedagógica.

"Em vez de obter o conhecimento em um pacote pré-embalado, os estudantes têm que ligar os pontos por conta própria. Isso não apenas os ensina a encontrar informações, mas estabelece um ambiente no qual novos conhecimentos possam surgir. Sem impor as limitações em que o professor acredita, os alunos analisam o conhecimento de uma maneira diferente e mais ampla." Liisa Hinonen, Coach Proakatemia

Em todo o processo de aprendizagem no Proakatemia -- e principalmente durante as sessões de treinamento -- o diálogo e o feedback são as ferramentas mais usadas. Em círculos, os times se reúnem, com ou sem coach, para refletir, desenvolver e decidir questões necessárias à sua realidade de aprendizagem, tais como dificuldades encontradas, problemas com algum membro do grupo, desafios a serem superados, revesses, decisões bem-sucedidas e por aí vai.

Os empreendedores do Proakatemia leem e escrevem muito (a Finlândia, aliás, é o país com o maior índice mundial de leitura, de acordo com alguns dos rankings internacionais). Os textos que escrevem durante o programa dividem-se em três tipos: (a) postagens em blogs que devem provocar discussão e ação da comunidade; (b) ensaios individuais, com reflexões sobre a teoria estudada em perspectiva com as experiências vividas; (c) e, claro, a escrita acadêmica, em conjunto com outros empreendedores, apresentando resultados científicos de suas descobertas.

Ao considerar a literatura estudada, os seminários, as palestras e os workshops, alguns temas são prioritários e compõem a linha-guia de formação. Os principais são: (a) aprendizagem organizacional; (b) vendas, clientes e redes; (c) habilidades de liderança; (d) marketing; (e) aspectos econômicos de uma empresa; (f) produtos inovadores e ideias de negócios; (g) tecnologias de informação e comunicação para empreendedores; (h) empreendedorismo responsável e sustentável; (i) empreendedorismo no turismo; (j) especialização em um ou mais ramos específicos de negócios.

Todo o processo é desenvolvido em um ambiente de confiança e segurança, mas que mantém tensões úteis para a aprendizagem transformativa, esta, segundo eles, construída a partir de momentos de fricção e incerteza durante o processo. Além da confiança e da segurança, são destaques no processo a liberdade que os empreendedores têm e a responsabilidade que devem exercer desde o primeiro dia.

"Encontre o seu jeito de aprender"

Frase rabiscada em um dos murais do Proakatemia

O ESPAÇO DE APRENDIZAGEM

Por falar em ambiente, você já deve ter desconfiado que tudo isso não poderia ocorrer em salas de aula tradicionais, não é?

O Proakatemia está localizado fora do campus da TAMK em uma espécie de complexo comercial e cultural da cidade de Tampere, ocupando o andar inteiro de um prédio que em um passado não muito distante sediava um depósito e até mesmo uma fábrica de munições. O espaço foi totalmente revitalizado e hoje sedia diversas empresas da cidade, bem como restaurantes, eventos e atividades de entretenimento, além de manter proximidade com alguns dos parques da cidade.

As instalações do Proakatemia são compartilhadas por estudantes, coachs e ex-alunos da TAMK que já são empreendedores, assim como alugada e usada para eventos vinculados à tecnológica, ao empreendedorismo e à inovação. Dessa forma, diariamente convivem empreendedores em ação e em formação, o que gera um ambiente de atividade rico e próximo ao que os empreendedores irão encontrar após formados.

As premissas de espaço aberto e de trabalho próximo aos clientes se estabeleceram como ponto de partida, de forma que aquilo que se percebe é um ambiente descontraído, versátil, esteticamente impecável e que em nada se parece com um ambiente tradicional de ensino (e sim com os espaços de trabalho das atuais e mais famosas startups do mundo).

Logo ao entrar você é aconselhado a tirar o calçado, o que simbolicamente representa respeito e intimidade ao espaço de aprendizagem. O lugar pulsa vida: em suas dezenas de cantos, salas, paredes, murais e ambientes: com frequência encontramos histórias de empreendedores-destaque nos anos anteriores, valores do programa, metodologias usadas, convites para festas, assim como informações e propagandas das empresas que surgiram ou estão surgindo no Proakatemia.

Há um espaço para bebida e alimentação, usado descontraidamente para reuniões, momentos de feedback ou de leitura. Talheres, xícaras e pratos: você usa e você mesmo lava. O espaço é autogerido pelos times.

Se você quiser comprar souvenir, há blocos e canetas à disposição. Pegue o seu, deixe o dinheiro em uma bolsa e anote seu nome. Não há um vendedor, há confiança em todos os detalhes.

ESPERANÇA

A maioria dessas empresas existe até os dias de hoje, sendo algumas de grande destaque na Finlândia. Não é raro que as organizações criadas no Proakatemia sejam vendidas e revendidas entre calouros e veteranos, inclusive como parte do processo de aprendizagem (negociar e vender uma empresa é tão ou mais difícil que fundá-la). Só para se ter ideia da dimensão, em 2017 o valor total movimentado pelas empresas do Proakatemia foi de R$ 4.250.000,00 (convertidos a taxas de junho de 2018).

Minha trajetória de empreendedor e de educador, somadas a minha análise e intuição, permitem-me afirmar com tranquilidade e positividade que veremos em breve o surgimento de programas como o Proakatemia no Brasil, desenvolvendo e formando empreendedores de impacto.

Sem notas, sem provas e sem aulas.

Gabriel Cardoso é mestre em Educação, Especialista em Economia Brasileira e Administrador. Atualmente é Coordenador Geral de Graduação do Centro Universitário UDF, instituição do consórcio STHEM Brasil; e professor conselheiro do Programa Academia do ICE. Suas áreas de interesse são educação empreendedora; empreendedorismo social; inovação acadêmica; ensino superior.

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