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Narrativas persuasivas e verdades imutáveis: o desafio do líder moderno




Imagine um mundo onde as histórias que contamos tenham o poder de desafiar as leis da natureza.


Utópico, não seria?


Pois é: muitas vezes esquecemos que as narrativas não revogam realidades naturais, por mais que sejam estratégias de persuasão e influência de futuros eficientes.


Eu sei, as narrativas são a espinha dorsal da civilização humana. Desde os mitos antigos até as ricas campanhas de marketing, narrativas contribuem para moldar nossas percepções sobre a realidade, influenciar decisões e definir a cultura de bairros, organizações e dos países em que vivemos. Dentro do contexto político, corporativo e social, uma história bem contada pode vender produtos e empresas; inspirar revoluções; e até mudar o curso da história de uma nação. Aliás: o próprio entendimento da realidade é frequentemente moldado e atualizado através da narrativa científica.



Narrativas moldam percepções, compreensões e julgamentos
Narrativas moldam percepções, compreensões e julgamentos (DALL-E)


No entanto, por mais que narrativas sejam capazes de contribuir para transformar a percepção e a experiência humana e de influenciar comportamentos, elas encontram seus limites ao confrontar leis naturais. Em uma era era de inovações aparentemente ilimitadas e de disputas políticas desarrazoadas, algumas verdades não são afetadas, nem por excepcionais contadores de histórias. Em outras palavras: a gravidade não se curva diante de uma boa história.

 

Nessa contradição entre o poder e os limites da narrativa é que reside, então, o desafio do líder moderno: como equilibrar o desejo de persuadir, convencer e mobilizar, quando os fatos e os números se sobrepõe às aspirações e sonhos?



Como equilibrar o desejo de persuadir, convencer e mobilizar, quando os fatos e os números se sobrepõe às aspirações e sonhos?
Como equilibrar o desejo de persuadir, convencer e mobilizar, quando os fatos e os números se sobrepõe às aspirações e sonhos? (DALL-E)


Esses três caminhos, de largada, podem evitar desilusões, frustrações e sofrimento humano na construção de narrativas:

  • por meio de narrativas que pensem em futuros desejáveis, porém prováveis;

  • por meio de narrativas que antes reflitam sobre os riscos de resultados não esperados e não desejados;

  • por meio de narrativas que contem histórias persuasivas, porém condizentes de forma verdadeira e honesta, intelectualmente falando.


No campo em que atuo, organizações sociais e campanhas de mudança precisam dessa ancoragem ponderada para transformar aspirações em realizações tangíveis: e não criar antipatia dos que conseguem facilmente observar a realidade se sobrepor às boas histórias. O caso clássico é literalmente tentar vender iniciativas e organizações com falso #ImpactoSocial e #ImpactoAmbiental com boas histórias, mas sem intencionalidade, mensuração e confiabilidade.


No outro espectro, veja como exemplo a forma como a narrativa da pobreza é moldada. Em muitos casos, desinformados (ou mal-intencionados) culpam apenas os indivíduos por suas circunstâncias, ignorando as forças sistêmicas e estruturais que perpetuam injustiças e desigualdades. Apesar da responsabilização do indivíduo por suas decisões, as forças estruturais também influenciam, e muito, o presente e futuro das pessoas.



Outro exemplo é a resposta à mudança climática, onde narrativas de inovação tecnológica onisciente e onipresente, capazes de tudo parar e tudo mudar -- preconizadas por Yuval Harari como a nova religião que louva a tecnologia -- devem ser equilibradas e ponderadas com a aceitação das limitações impostas pelas leis da física e da química


 

Em última análise, a força da realidade natural, mesmo sendo muito influenciada por narrativas sociais, prevalecerá, independentemente de quão convincentes sejam nossas histórias. Narrativas não revogam a lei da gravidade.



Narrativas não revogam a lei da gravidade
Narrativas não revogam a lei da gravidade (DALL-E)

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