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Quando o pós-pandemia chegar, veremos alguma transformação?

Como será o enfrentamento entre indivíduos e organizações com os desafios sociais daqui para a frente?


Publicado originalmente em Exame


Por Gabriel Cardoso*


Não se programe nem marque na agenda: não haverá um dia em que irão declarar o encerramento oficial da pandemia no Brasil. A transição será gradual e só conseguiremos perceber a chegada do período pós-pandemia olhando para trás e em perspectiva.


Há uma sensação de chegarmos na fase mais amena dos últimos 18 meses, com uma luz a surgir no horizonte, mas ainda estamos repletos de dúvidas quanto ao futuro. Além de inquietações e incertezas sobre a influência da pandemia nas políticas públicas para a saúde, educação e inclusão produtiva; sobre os efeitos da pandemia na saúde mental, na cultura e em nossos hábitos; e sobre as consequências da pandemia na economia, na política e no meio ambiente, tenho me perguntado: como será o comportamento de indivíduos e organizações no enfrentamento de desafios sociais, como a pandemia, daqui para a frente?


A onda ESG, que cresceu exponencialmente no período pandêmico, formando especialistas em tempo recorde e de forma surpreendente, é um exemplo. Até que ponto são iniciativas exclusivas para redução de risco de negócios e até que ponto abrangem também uma intenção genuína de posicionar as empresas como corresponsáveis pela resiliência e regeneração social e ambiental do território em que se organizam?


O movimento de impacto social e ambiental — que apesar de irmão do movimento ESG, tem personalidade e objetivos diferentes — aos poucos se torna popular e atrai cada vez mais praticantes. Não basta se achar de impacto, é necessário ter intencionalidade clara e expressa sobre o desafio social que se busca enfrentar. E não é só isso: entender os resultados e o impacto da operação, mensurando-os e avaliando-os não pode ser exceção: deve ser um processo prioritário, porque sabemos que se tudo for impacto, nada será impacto.


E como caminhamos no investimento social privado e na filantropia? Os dados do Gife nos mostraram que 78% das organizações brasileiras destinaram recursos para o combate à pandemia. Os números ainda mostram um provável aumento do volume total de investimento da filantropia institucional em 2020, algo que poderá ser checado em detalhes no lançamento da próxima edição do Censo Gife, em dezembro deste ano.


E as redes interorganizacionais e articulações intersetoriais que surgiram na pandemia? Permanecerão e se sofisticarão para outras frentes e novos desafios? E tantos movimentos da sociedade civil que testemunhamos nascer, irão eles usar seu capital intelectual, desenvolvido nos últimos 18 meses, para encarar novos problemas sociais? Movimentos, redes e articulações podem não continuar da forma que surgiram, mas é possível que a experiência se conserve, se renove e se multiplique para outras demandas sociais que nos visitarão no amanhã.


O fato, afinal, é que, quando o pós-pandemia chegar, indivíduos e organizações estarão diferentes. A dúvida é: será uma mudança passageira e que irá embora tão logo a pandemia se encerre e os holofotes se desliguem ou será que estamos vivenciando um período de transformação profunda?


Não sou otimista, sou profundamente possibilista, como era Hans Rosling. Podemos fazer parte de um progresso cultural e comportamental genuíno e duradouro, legando à próxima geração o melhor que poderíamos enquanto sobreviventes da pandemia do coronavírus.


*Gabriel Cardoso é autor, pesquisador e gerente executivo do Instituto Sabin




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