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O florescer de empreendedores sociais no Brasil: olhando para o início da jornada

Investimentos nas fases iniciais da jornada empreendedora são fundamentais para gerar pipeline de negócios de impacto socioambiental. Iniciativas como a TransformAção podem contribuir.


Nem todos conhecem a expressão "setor dois e meio". Trata-se de uma alusão a um setor da economia com organizações que geram intencionalmente impacto social (como no terceiro setor) e possuem sustentabilidade financeira, além de operar nas lógicas de mercado (como no setor empresarial ou segundo setor). As organizações do setor dois e meio se chamam negócios de impacto (negócios sociais) e são apoiadas por organizações dinamizadoras do ecossistema que pertencem.

Outro jargão, este dentro do setor dois e meio, é jornada empreendedora -- ou pipeline de negócios (quase a mesma coisa, sendo que o primeiro foca no sujeito e o segundo na organização). Na jornada estão as fases que o empreendedor e seu negócio atravessam, cada uma com suas características, necessidades e desafios. Tudo começa na (1) Sensibilização para empreender e se tudo der certo avança pelas fases de (2) Ideação, (3) Validação, (4) Operação, (5) Tração até o negócio (6) Escalar. Nem todo negócio de impacto social segue a mesma jornada, mas esta é uma lógica frequentemente usada em ecossistemas para incentivar o empreendedorismo social, apoiar as organizações, captar recursos, realizar investimentos e/ou propor políticas públicas.

As fases funcionam como uma espécie de funil (ou como um conduto tubular), ou seja: para termos mais negócios de impacto socioambiental em (4) Operação, (5) Tração e (6) Escala, precisamos ter muito (MUITO) mais pessoas (1) Sensibilizadas, gerando boas (2) Ideias e (3) Validando-as com sucesso. Minha experiência diz que para cada empreendedor social que chega na (4) Operação, centenas ficaram para trás na (3) Validação. Essa proporção quase se repete da (4) Operação para a (5) Tração e uma menor, mas ainda grande, da (5) Tração para a (6) Escala (o famoso 'vale da morte' -- pelo alto risco de fechamento).

Não há milagres, portanto. Para termos no ecossistema de empreendedorismo um volume adequado de bons negócios de impacto, prontos para receber recursos nas fases (4) Operação, (5) Tração e (6) Escala, devemos ter um investimento coletivo, proporcionalmente maior, nas fases de (1) Sensibilização, (2) Ideação e (3) Validação (pelo menos até gerar cultura e fluxo necessários para manter as fases finais com volume constante). Sem isso, a jornada se torna incompleta, o funil não gera saída, o conduto tubular fica capenga e o ecossistema, claro, desestruturado.

E talvez, leitor, você deva imaginar que a proporção de investimentos já seja maior nas fases iniciais para evitar que isso aconteça, correto? Errado. O padrão do ecossistema brasileiro de apoio e investimentos na jornada, concentra recursos nas fases 4, 5 e 6, e paradoxalmente protesta que "faltam bons negócios de impacto nessas fases".

Há algumas possíveis razões para o investimento desequilibrado na jornada. A primeira e mais importante é a diminuição do risco do capital investido. Também porque é mais fácil justificar obtenção de recursos ou garantir aumento de investimentos em fases em que as métricas de sucesso são mais concretas e as probabilidades de bons resultados são maiores. E para quem sobra então a responsabilidade de ‘gerar pipeline’?


Foto de Nick Fewings na Unsplash

Acredito que essa é uma responsabilidade diluída entre os interessados em empreendedores sociais e negócios de impacto em todas as fases da jornada. Deveria haver um olhar sistêmico nesse processo e um movimento coletivo pelo bem do 'pipeline', do 'ecossistema' e não somente dos interesses A, B ou C.

Como essa visão ainda está em construção, sobra às políticas públicas, ao capital filantrópico, ao investimento social privado e/ou ao capital paciente a responsabilidade atual por garantir o volume e o fluxo da jornada empreendedora, incentivando e fortalecendo as fases 1, 2 e 3.

Sobre sensibilização, ideação e validação, o Instituto Sabin lançou no dia 16 de março a TransformAção <jornadasocial.com.br>. Promover a ‘carreira’ no empreendedorismo social, viabilizar um espaço confiável e eficiente de aprendizagem, ajudar para que novos empreendedores de impacto socioambiental iniciem sua jornada, proporcionar conteúdo e oportunidade para que testem suas ideias, criar comunidades e fortalecer ecossistemas, e, ao fim, garantir que empreendedoras recebam apoio para validar suas ideias e chegar nas fases 4, 5 e 6: estes são os objetivos da TransformAção!

A TransformAção é uma experiência de aprendizagem gratuita e livre, composta por uma websérie com episódios curtos que exploram temas como valor social, problemas públicos, estratégia, modelo de negócio social, sustentabilidade financeira, impacto social e ambiental, comunicação, conhecimento de mercado, formalização jurídica, avaliação de impacto, inovação social e muito mais. Os participantes também terão acesso gratuito a um guia da jornada (e-book), conteúdo em áudio (podcasts), um workbook com ferramentas, desafios para lhe impulsionar e lives especiais. Em uma segunda fase, mentorias e capital semente serão direcionados por meio de editais específicos aos que evoluírem sua ideia na jornada.

A TransformAção também é livre para parceiros (institutos, fundações, organizações dinamizadoras, incubadoras, universidades e empresas) que queiram incorporá-la em suas operações de ensino, estímulo e prática de empreendedorismo de impacto socioambiental. Basta entrar em contato conosco para encontrarmos o melhor caminho para viabilizar a utilização.

A jornada empreendedora dos negócios de impacto social no Brasil, também conhecidos como pipeline de negócios de impacto, é um subsistema complexo e desafiador que envolve a mobilização e o incentivo de diversos atores e dinamizadores de ecossistema. Para evoluirmos o volume e o perfil dos negócios de impacto social no Brasil é necessário que aumentemos o investimento coletivo em iniciativas que estimulem as fases de Sensibilização, Ideação e Validação.

Quem mais está disposto a investir esforços e capital, financeiro e não-financeiro, nessas fases conosco?





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